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Conversas Maternas - Eduardo Duarte

Preguiça de falar existe?

Muitas vezes, qual é a primeira coisa que pensamos quando uma criança não fala no tempo certo de seu desenvolvimento? Que é preguiça, não é mesmo?! Podemos até achar isso (não é nenhum absurdo...), mas nos cabe questionar se realmente há a possibilidade de estar acontecendo alguma coisa com a criança que ainda não fala. Preguiça não é diagnóstico.


O ponto de partida é ter conhecimento do marco do desenvolvimento da fala, pois as crianças com desenvolvimentos típicos conseguem falar no percurso natural da sua evolução, coisa que não acontece com as crianças com desenvolvimento atípico. É necessário atenção e um cuidado maior em perceber que ela não está limitada e banalizada à preguiça. Depois ir até um fonoaudiólogo com experiência e conhecimento para investigar o que está acontecendo.


"Os fonoaudiólogos trabalham para prevenir, avaliar, diagnosticar e tratar distúrbios da fala, linguagem, comunicação social, comunicação cognitiva, ou seja, eles trabalham a comunicação"

De acordo com a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, embora haja variações individuais, se uma criança tem 2 anos (2a6m de acordo com a revisão do CDC/22) e ainda não fala, ou fala muito pouco, é importante procurar a orientação de um fonoaudiólogo. O profissional identificará o tipo de distúrbio de comunicação do paciente e a melhor maneira de tratá-lo. Mas é comum também que o paciente busque um fonoaudiólogo após orientação de outro profissional da saúde, como neuropediatra ou otorrinolaringologista. Logo, o tratamento pode incluir várias sessões de terapia, dependendo do problema de comunicação.

Quando a ausência de fala aparece como um sintoma o que devemos pensar? Para vocês, falar parece fácil? Pois bem, falar não é tão simples assim, envolve vários sistemas, como: físicos e/ou fisiológicos; motor; cognitivo; comunicativo e sócio emocional. Precisamos identificar qual desses sistemas estão falhando e saber a causa que impede que a criança fale. Sabemos que a fala requer um exercício de repertório que tem pré-requisitos necessários para que uma criança possa chegar ao ato de falar. Para isso, vamos detalhar de forma didática alguns desses pré-requisitos da fala:


PRÉ-REQUISITOS DA FALA

Desenvolvimento e Maturação Neurológica:

A linguagem é um fenômeno cognitivo complexo e bastante desenvolvido no cérebro humano. Sem exagero, é possível dizer que praticamente todas as regiões cerebrais estão envolvidas de alguma forma com a linguagem. Issoporque ela se reveste de aspectos emocionais, requer a reativação de várias modalidades de memória, como visuais, auditivas e olfativas edepende da integridade de inúmeras outras funções cerebrais, primitivas e filogeneticamente mais evoluídas. Quando você fala com alguém, não imagina o grau de refinamento neurológico alcançado ao longo de milhares de anos de evolução. Se pudesse eleger um aspecto do nosso comportamento que realmente nos torna diferentes em relação às outras espécies, certamente diria a linguagem.


A American Speech and Hearing Association a define como um complexo e dinâmico sistema de símbolos utilizado de diferentes modos parao pensamento e comunicação. A linguagem pode ser avaliada e entendida segundo os parâmetros fonológico, morfológico, sintático, semântico e pragmático e os fatores biológicos, cognitivos, psicossociais e ambientais. Todos esses aspectos determinam seu aprendizado e uso. Como mencionado acima, a linguagem constitui um claro exemplo de função cerebral superior e seu desenvolvimento sustenta-se em uma estrutura anatômica e funcional determinada geneticamente e no estímulo verbal oferecido pelo meio. Dentro dessa estrutura anatomofuncional, participam diversos sistemas e subsistemas que atuam em série e em paralelo.


"A capacidade de compreender a linguagem antecede a capacidade de se expressar, mesmo a criança que ainda não tenha a maturação e o desenvolvimento neurológico possível para falar a capacidade de compreensão já é existente nela.

Podemos citar dentro do desenvolvimento neurológico infantil a aquisição de fonemas, que irão acontecer durante o processo de crescimento da criança. Ainda serão necessárias outras condições como:

Tônus muscular:

O tônus muscular é o estado involuntário de contração natural dos músculos corporais, responsável por fazer com que possam entrar em ação sempre que necessário. Os estímulos nervosos são os responsáveis por provocar o tônus muscular, estado no qualos músculos se encontram constantemente. Sem o tônus muscular, os músculos estariam em total repouso (hipotonia), condição esta que dificultaria o seu movimento imediato. A perda do tônus muscular ocorre quando há uma lesão no nervo responsável por manter o músculo em semicontração. A hipotonia é a perda do tônus muscular e a hipertonia consiste no aumento anormal do tônus muscular. Esta condição é normalmente consequência de algumas patologias neurológicas, ou motivadas por tensões emocionais. O que implica o tônus muscularno ato de falar? A fala é um ato motor intencional que envolve planejamento motor, músculos, articulações, integridade neurológica, etc. O autor Le Boulch consegue explicar essa correlação em uma frase: “O tono muscular é a atividade primitiva e permanente do músculo; alémde traduzir a vivência emocional do organismo, é o alicerce das atividades práxicas”.

Ambiente:

A linguagem também é definida a partir do ambiente, por isso, é importante prestar atenção para não cometer inadequações. Falar com um bebê por exemplo, exige vocabulário, entonação, forma, adequações específicas para se comunicar e o repertório vai se modificando conforme a evolução da criança. Faz parte do ambiente pensar nos interlocutores (emissor e receptor) são os parceiros nacomunicação, por isso, esse é um dos fatores determinantes para a adequação linguística. O objetivo de toda comunicação é a busca pelo sentido, para haver entendimento entre os interlocutores. Sendo assim, considerar o interlocutor também como ambiente é fundamental.

Contato visual:

Olhar no olho é uma das primeiras trocas de comunicação. Quando a criança olha para o adulto e ele a dá atenção, ela começa a se comportar de forma que o outro atenda às suas necessidades. Se observarmos um bebê, antes mesmo dele completar um ano, ele já faz “pedidos” através do olhar. Além disso, olhar no olho ajuda a criança a observar a pronuncia, expressão, sonorização do adulto que futuramente irá ajudar na produção da sua própria fala.

Atenção compartilhada:

A atenção compartilhada é um fenômeno bastante explorado na Psicologia do Desenvolvimento e é definida, de modo geral, como um fenômeno que envolve habilidades dos bebês de coordenar e direcionar sua atenção visual a objetos e/ou eventos para os quais adultos estejam dirigindo sua atenção. Os estudiosos do desenvolvimento acrescentam que a atenção compartilhada caracteriza-se pela existência de um foco atencional ao qual pelo menos dois indivíduos direcionam sua atenção com o objetivo de compartilhar uma experiência e, por esse motivo,o fenômeno teria uma função essencialmente comunicativa.

Intensão comunicativa:

A intenção de se comunicar de uma criança é quando ela usa gestos ou sons que indique aquilo que ela deseja, vai muito além da fala, ela precisa ter vontade de se fazer entendida, de expressar o que quer, seja através de gestos ou sons, e essa fala precisa ser funcional, precisa conter intenção comunicativa. A intencionalidade comunicativa é considerada, na perspectiva desenvolvimentista, uma forma da criança construir significados e desenvolver a compreensão da intenção comunicativa do outro. Podemos supor que uma análise operante da finalidade intencional da atenção compartilhada, elementos fundamentais para a aquisição da fala: análise comportamental da “atenção compartilhada” a necessidade da mediação da comunidade verbal para a aprendizagem do repertório verbal, significa que os adultos que constituem a comunidade verbal do bebê estabelecem contingências de controle de estímulos para as respostas verbais do bebê.


Podemos descrever comportamentalmente o aspecto da intencionalidade comunicativa em uma situação de interação entre mãe e bebê na qual o bebê direciona seu olhar para um objeto: um carrinho de brinquedo, por exemplo. Na sequência de ações que caracterizariam a interação, a mãe, em seguida ao direcionamento do olhar do bebê ao carrinho, direciona seu olhar para o mesmo objeto e emite respostas direcionadas ao bebê, tais como as seguintes falas: “Ah, o carro! Já sei o que você quer... passear né? Mais tarde a mamãe te leva para passear de carro”. Esta situação descreve contingências de controle de estímulos verbais estabelecidas pela mãe que poderiam, sob perspectivas diferentes da comportamental, ser interpretadas como se o bebê emitisse a resposta de direcionar seu olhar em direção ao carrinho com a intenção ou vontade de dizer para a mãe “gosto de passear de carro” ou “me leve para passear de carro”.

Imitação:

Desde muito cedo, somos capazes de imitar expressões faciais, gestos, sons, entonação, ações, etc. A criança ao imitar adquire as mais diversas habilidades e começa a dar significado aos sons, gestos e ações para adiante tornar a fala funcional e contextualizada. Os jogos vocais (ensaios, brincadeiras com diversos sons) experienciados já desde bebê são essenciais enquanto treinos de imitação para o desenvolvimento da fala, para treino de intenção e iniciativa comunicativa. Quando as imitações são aproximadas à palavra falada, é possível ir aprimorando e aumentando, gradualmente, as imitações. A Criança ao ser capaz de imitar aprende coisas novas que podem ser repetidas em outros contextos. Uma criança que não faz imitação motora, muito provavelmente terá dificuldade para fazer imitações verbais.

Compreensão auditiva:

A criança compreende e/ou escuta o que é falado? O sistema auditivo tem que estar em perfeito funcionamento, aausência ou prejuízo do sistema auditivo e das habilidades auditiva é um sinal de alerta para alguns distúrbios da comunicação e/ou do neurodesenvolvimento, prejudicando muitas vezes a fala. Para obedecer e ou executar o que lhe falamos, a criança precisa entender o que ouve, pois aprendemos a falar observando e imitando, mas antes precisamos das habilidades auditivas que são: detectar, localizar,discriminar e entender o que ouvimos.

Comportamento de ouvinte:

Um ouvinte é uma pessoa que ouve algo. O termo deriva do verbo ouvir que se refere à capacidade de um indivíduo em perceber um som. Nós, seres humanos, ouvimos graças ao sistema auditivo. Para análise de comportamento, ouvir é um comportamento, para que se torne eficaz o ouvinte precisa estar atento, entender o que o outro está falando e assim consequentemente começar a falar. O ouvinte é relevante apenas como parcela do ambiente do falante, garantindo condições para a emissão e manutenção do comportamento verbal. Aqui podemos analisar que alguns pré-requisitos citados nesse texto caminham unidos, o comportamento de ouvinte precisa de atenção, imitação, modulação muscular, maturação neurológica, compreensão auditiva dentre outros para mais tarde estabelecer o desenvolvimento do comportamento de falante.

Seguimentos de instrução:

Responder de forma consistente a demanda. O que seria isso? Seria você pedir algo para criança e ela fazer. Por exemplo, você pede para o seu filho dar tchau para alguém e ele faz o movimento do tchau. Pedir para ele pegar o chinelo e ela trazer o chinelo até você. Conforme o desenvolvimentode seu filho as instruções vão aumentando e ficando mais complexas, inicialmente ele ficará obedecendo instruções para mais tarde começar a entender que elas podem ser dadas por ele próprio. Todos esses repertórios de pré-requisitos da fala são fundamentais não sópara aprendizagem da fala, mas também para o desenvolvimento da socialização e autonomia de todas as crianças.


UFA! Depois de analisarmos isso tudo, podemos mesmo associar qualquer criança que tem por sintoma a ausência de fala à preguiça?! Agora deixo para que cada um de vocês pensem sobre isso e busquem suas respostas. Na dívida, procure um profissional especializado.



*Sabrina Aleixo é fonoaudióloga(CRFa1 13782) e psicomotricista. Especializada em Saúde Mental e Desenvolvimento da Infância e do Adolescente; especializanda em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual.

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