Por que a criança precisa correr?
- Geovanna Tominaga

- 12 de jun.
- 3 min de leitura

Antes de sentar e conversar com uma criança agitada, coloca ela para correr.
Parece simples demais.
Mas é exatamente o que o sistema nervoso dela está pedindo.
Por que a criança precisa correr?
O movimento físico é um dos reguladores emocionais mais poderosos que existem para crianças. E estamos trocando ele por tela sem perceber o que estamos perdendo.
O que acontece no corpo:
Quando a criança corre, pula, escala, rola no chão ou brinca de pega-pega, o corpo libera cortisol acumulado, o hormônio do estresse, e aumenta a produção de serotonina e dopamina de forma natural e saudável.
Ao contrário da dopamina liberada pelas telas, que vem em picos rápidos e cria dependência, a dopamina liberada pelo movimento físico é gradual, duradoura e deixa o sistema nervoso mais equilibrado.
O resultado prático: uma criança que brincou, correu e se moveu chega ao final do dia com muito mais recursos para regular o que sente.
Movimento, natureza e o sistema nervoso infantil
O contato com a natureza potencializa ainda mais esse efeito.

Pesquisas recentes mostram que crianças expostas regularmente a ambientes naturais, parques, praças, jardins, apresentam menor nível de estresse, melhor regulação emocional e maior capacidade de atenção do que crianças com pouco contato com espaços ao ar livre.
A natureza não precisa ser uma floresta. Pode ser o parque da esquina, o jardim de casa ou a calçada onde se brinca de bolinha.
O que importa é o movimento livre, sem roteiro, sem tela e com espaço para o corpo fazer o que foi feito para fazer.
Infância contemporânea e regulação emocional
Uma geração atrás, crianças passavam horas brincando na rua. Caíam, levantavam, corriam, gritavam, inventavam regras e resolviam conflitos em tempo real. Esse tempo não era só diversão.
Hoje, parte significativa desse tempo foi substituída por tela. E o corpo, que precisaria se mover para liberar tensão e regular emoções, fica parado, acumulando o que não consegue processar.
Uma pesquisa publicada na revista Lancet Child & Adolescent Health mostrou que crianças que se movem menos de uma hora por dia apresentam piores indicadores de saúde mental, incluindo maior ansiedade, maior irritabilidade e menor tolerância à frustração, em comparação com crianças que atingem o tempo recomendado de atividade física.
O que fazer na prática:
Priorize o recreio.
Parece óbvio, mas o recreio tem sido cada vez mais reduzido ou substituído por atividades dirigidas. O tempo de brincadeira livre no recreio é insubstituível para o desenvolvimento emocional.
Crie rotinas de movimento antes de momentos exigentes.
Antes de fazer lição de casa, antes de jantar, antes de dormir: dez minutos de movimento livre fazem diferença na qualidade do que vem depois.
Priorize o ar livre.
Sempre que possível, troque a tela por tempo ao ar livre. Não precisa ser atividade organizada. Brincar livremente, sem objetivo, já é suficiente.
Deixe a criança se sujar.
Correr na terra, pegar insetos, subir em árvore, brincar na chuva. Experiências sensoriais intensas regulam o sistema nervoso de uma forma que nenhuma atividade indoor consegue replicar.
O corpo e as emoções não são sistemas separados. São a mesma coisa.
A criança que se move, que corre, que brinca livre e que tem contato com o mundo real está fazendo muito mais do que se divertir. Está regulando o sistema nervoso, construindo resiliência e desenvolvendo as ferramentas emocionais que vai usar pelo resto da vida.
E tudo que a criança de hoje precisa para isso é espaço, tempo e um adulto que resista ao impulso de entregar a tela.
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Geovanna Tominaga. Jornalista, especialista em infância contemporânea e neurodesenvolvimento, autora do livro Terra do Contrário (PNLD 2026-2029) e idealizadora do Conversas Maternas.



















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