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Perigos da privacidade e design padrão

há 3 minutos
4 min de leitura

O padrão das plataformas não protege seu filho


Criança no tablet e os perigos da privacidade e design padrão

Quando seu filho cria uma conta numa rede social, qual é a configuração padrão do perfil dele? Público ou privado?


Até março de 2026, a resposta dependia de cada plataforma. E a maioria escolhia público, porque perfis públicos geram mais engajamento, mais dados e mais receita publicitária.


A partir da entrada em vigor do ECA Digital, Lei 15.211/2025, isso mudou. Ou deveria ter mudado.


Dois princípios centrais da lei determinam exatamente isso: Privacidade by Default e Design by Default. São conceitos técnicos com nome em inglês, mas com consequências muito concretas para a vida digital das crianças brasileiras.


O que é Privacidade by Default (padrão)?


Privacidade by Default, ou privacidade por padrão, é o princípio que determina que plataformas digitais devem proteger a privacidade do usuário desde o primeiro acesso, sem que ele precise fazer nenhuma configuração para isso.


A lógica é simples: a configuração mais protetora deve ser a padrão. Não a configuração que maximiza o engajamento da plataforma. Não a que facilita a coleta de dados. A que protege.


Isso significa que quando uma criança cria uma conta numa rede social, o perfil dela deve ser automaticamente privado. Estranhos não podem mandar mensagens. A geolocalização está bloqueada. Os dados não são compartilhados com anunciantes por padrão.


Se a família quiser alterar alguma dessas configurações, pode. Mas o ponto de partida é sempre a proteção máxima, não a exposição máxima.


O ECA Digital obriga as empresas a reconfigurar arquiteturas digitais, desincentivando práticas como coleta excessiva de dados e perfilamento comportamental de crianças. Isso representa uma mudança estrutural no modelo de negócios das plataformas, que historicamente foram construídas para coletar o máximo de dados possível.


O que é Design by Default ( padrão)?

Criança no tablet e os perigos da privacidade e design padrão

Design by Default, ou design seguro por padrão, é o princípio complementar. Se a Privacidade by Default trata dos dados, o Design by Default trata da experiência de uso.


Ele determina que o design das plataformas deve ser seguro e não manipulativo por padrão, especialmente quando o público é formado por crianças e adolescentes.


Na prática, isso significa que plataformas acessadas por crianças ficam proibidas de usar mecanismos projetados para criar dependência ou compulsão:

  • scroll infinito que nunca tem fim;

  • autoplay que inicia o próximo vídeo automaticamente sem ação do usuário;

  • notificações enviadas em horários estratégicos para reengajar o usuário;

  • recompensas aleatórias projetadas para ativar o sistema dopaminérgico;

  • sistemas de pontuação que estimulam uso compulsivo.


O design seguro deve ser o padrão. Não uma opção que os pais precisam descobrir e ativar em menus escondidos.

Por que esses dois princípios existem?

Porque o modelo de negócios das grandes plataformas digitais foi construído sobre dois pilares que são diretamente contrários aos interesses das crianças: coleta máxima de dados e engajamento máximo.


Quanto mais a plataforma sabe sobre o usuário, mais precisa e mais cara é a publicidade que ela pode vender. Para coletar mais dados, as configurações de privacidade padrão favorecem o compartilhamento.


Engajamento gera receita. Quanto mais tempo o usuário passa na plataforma, mais anúncios ele vê. Para maximizar o tempo de uso, o design é construído para eliminar os pontos naturais de parada.


Para adultos, esses mecanismos já são preocupantes. Para crianças, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento e que não têm capacidade crítica plenamente formada para identificar manipulação, são especialmente danosos.


A Childhood Brasil, em análise publicada em março de 2026 sobre o ECA Digital, destaca que a lei proíbe o uso de perfis emocionais de crianças e adolescentes para fins publicitários, bem como a monetização de conteúdos que incentivem comportamentos aditivos. Os dois princípios são a base técnica dessa proibição.


O que muda na prática para as famílias?

Segundo o ECA Digital, ao criar uma conta, o perfil do menor deve ser automaticamente privado, com restrições de mensagens de estranhos e bloqueio de coleta de geolocalização. As empresas também devem oferecer ferramentas de supervisão parental simples de usar.

Se o seu filho passa cinco horas numa rede social, a plataforma tem a obrigação de fornecer um painel onde esse tempo possa ser controlado e limitado pelos responsáveis.


O scroll infinito em plataformas acessadas por crianças deve ter pontos de parada. O autoplay deve poder ser desativado facilmente. As notificações para menores devem seguir restrições de horário.


E qualquer dado coletado de crianças deve ter finalidade específica, ser proporcional ao serviço oferecido e não pode ser usado para publicidade comportamental.


Isso já está funcionando?

Parcialmente. O ECA Digital entrou em vigor em 17 de março de 2026. Mas a fiscalização efetiva pela ANPD, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, está sendo implementada de forma gradual.


A lei existe. As obrigações estão definidas. Mas o processo de adequação das plataformas ainda está em andamento, e nem todas estão cumprindo integralmente o que foi determinado.


Enquanto isso, o que as famílias podem fazer?


  1. Não esperar que a plataforma configure a proteção automaticamente.

  2. Verificar as configurações de privacidade dos aplicativos que os filhos usam.

  3. Ativar manualmente o que a lei exige que seja o padrão, até que a fiscalização force as plataformas a cumprir.


Como verificar se uma plataforma está cumprindo a lei


Alguns pontos práticos para verificar:


  • Ao criar uma conta nova, o perfil foi criado como privado automaticamente? Se foi criado como público, a plataforma não está cumprindo a Privacidade by Default.


  • Existe uma opção clara e fácil de encontrar para desativar o autoplay e limitar notificações? Se essa opção está escondida em menus confusos, a plataforma não está cumprindo o Design by Default.


  • Existe um painel de supervisão parental acessível e funcional? O ECA Digital exige que isso exista.


Se identificar descumprimento, você pode registrar denúncia no site da ANPD em gov.br/anpd.

Site aqui: gov.br/anpd.


Leitura recomendada:



🔗 Fontes deste artigo

Childhood Brasil — ECA Digital entra em vigor (março 2026):https://www.childhood.org.br/ecadigital-entraemvigor/

Meira Fernandes Advogados — ECA Digital 2026 (abril 2026):https://www.meirafernandes.com.br/artigos/eca-digital-2026/

FADC — ECA Digital: o que é e o que muda:https://www.fadc.org.br/noticias/eca-digital-entenda-nova-lei

ECA Digital — Lei 15.211/2025:https://www.planalto.gov.br


Geovanna Tominaga. Jornalista, especialista em infância contemporânea e neurodesenvolvimento, autora do livro Terra do Contrário (PNLD 2026-2029) e idealizadora do Conversas Maternas.

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Eu sou Geovanna Tominaga, jornalista, educadora parental, especialista em neurociência, educação e desenvolvimento infantil. Sou estudante de psicopedagogia e mãe do Gabriel. 

Apaixonada por comunicação, criei o "Conversas Maternas" pra compartilhar  dicas e informações sobre maternidade e desenvolvimento infantil na Primeira Infância para uma parentalidade mais consciente.


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