Por que seu filho precisa se frustrar?
- Geovanna Tominaga

- há 8 horas
- 4 min de leitura
O que acontece no cérebro quando ele aprende a atravessar o desconforto

Existe uma crença muito difundida entre pais bem-intencionados: a de que o nosso papel é proteger nossos filhos do sofrimento. Antecipar, resolver, suavizar.
Garantir que a frustração não chegue. Ou, se chegar, dure o menor tempo possível.
Mas saiba que a neurociência indica outro caminho. Aquela pequena frustração do dia a dia, acompanhada de um adulto mediador, é exatamente o combustível que o cérebro infantil usa para construir a capacidade de se regular emocionalmente.
Portanto, tirar a frustração do dia a dia de uma criança pode atrapalhar o desenvolvimento!
O que acontece no cérebro quando a criança se frustra
Quando o bloco que não encaixa, o amigo que não quis brincar, o sorvete que caiu... e a criança se frustra, o sistema límbico dispara. A amígdala, responsável pelo processamento emocional, entra em ativação intensa. O corpo libera cortisol. A criança chora, grita, desmorona...
Esse momento é desconfortável para ela e para quem está ao lado. Mas é também um momento de treino neurológico fundamental. Entenda o por quê.
Para atravessar a frustração sem colapso total, o cérebro precisa acionar o córtex pré-frontal — a região responsável pelo controle inibitório, pelo planejamento e pela regulação top-down das emoções. É esse acionamento repetido, ao longo de centenas e milhares de pequenas frustrações cotidianas, que vai fortalecendo os circuitos de autorregulação.É literalmente treino! Como um músculo que só fica forte quando é exigido.

A maneira como as crianças vivenciam a infância influencia na maturação de determinadas regiões cerebrais, especialmente em períodos críticos do desenvolvimento.
Quando substituímos sistematicamente a frustração pela tela, pelo snack, pela solução imediata, estamos reduzindo o número de repetições desse treino. E o músculo não cresce.
Um estudo longitudinal canadense publicado no Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry acompanhou 265 famílias durante um ano, observando crianças entre 3 e 4 anos. Segundo a pesquisa, quanto mais os pais recorriam às telas para acalmar birras e momentos de frustração, menos as crianças desenvolviam a capacidade de controlar raiva e frustração por conta própria ao longo do tempo.
A criança que aprende a se regular pela tela nunca desenvolve as ferramentas internas para se regular sem ela.
O tédio é amigo da frustração
O tédio funciona pelo mesmo mecanismo. Uma criança que não sabe o que fazer, que reclama que está entediada, que demanda entretenimento contínuo, está, na verdade, diante de uma oportunidade neurológica.
O cérebro em repouso ativo, que vaga, que imagina, que não tem estímulo externo para processar, é o cérebro que consolida aprendizados, que cria conexões não óbvias, que desenvolve o que os neurocientistas chamam de rede de modo padrão.
É nesse estado que surgem as ideias, as brincadeiras inventadas, as soluções criativas para problemas. Quando preenchemos cada momento de tédio com uma tela, não estamos apenas evitando o desconforto. Estamos bloqueando um processo cognitivo e emocional que só acontece no silêncio.
Deixar a criança se frustrar não significa deixá-la sozinha no desconforto. Significa estar presente enquanto ela o atravessa. Há uma diferença neurológica enorme entre os dois.
A presença calma de um adulto que não resolve, mas que nomeia, que acolhe sem eliminar a emoção, é o que os pesquisadores chamam de co-regulação. E é ela que ensina, ao longo do tempo, a autorregulação.
Regulação e co-regulação emocional

Muitos pais recorrem às telas para acalmar seus filhos pequenos.
Um estudo longitudinal publicado na revista Emotion pela Universidade Brigham Young acompanhou crianças entre 3 e 4 anos ao longo de um ano para entender como esse hábito afeta o desenvolvimento emocional.
Segundo a pesquisa, crianças cujos pais usavam telas com frequência para regular emoções apresentaram, ao longo do tempo, menor repertório emocional, menor empatia e maior reatividade emocional, comparadas às crianças cujos pais adotavam outras estratégias de acolhimento.
Essa segunda pesquisa mostra que a direção da relação importa: não é só o quanto a tela é usada, mas para quê ela é usada.
Em linguagem simples: a forma como respondemos às emoções difíceis dos nossos filhos vai moldando a capacidade deles de responder às próprias emoções no futuro.
Três situações do dia a dia para praticar
Vamos ver como isso funciona na prática. Não se trata de dificultar a vida da crianca, faze-la sofrer. Mas de que mudar é a nossa resposta ao comportamento inadequado dela para ajudar a criança A se desenvolver. Veja as dicas a seguir:
Quando o brinquedo não funciona:
-Resistir ao impulso de resolver imediatamente.
-Ficar ao lado. Deixar a criança tentar. Só ajudar se ela pedir ou se a frustração chegar a um ponto que ela genuinamente não consegue atravessar sozinha.
Quando ela perde um jogo ou uma disputa:
-Nomear a emoção sem minimizar. "Você ficou com raiva de perder. Faz sentido."
-Não apressar a virada para "mas foi divertido" ou "na próxima você ganha."
-Deixar a decepção existir por alguns minutos.
Quando ela diz que está entediada:
-Não preencher imediatamente. "Entendo. O que você poderia fazer?"
-Esperar.
-Deixar o desconforto gerar a busca pela solução. Isso demora mais do que entregar o celular e é exatamente esse tempo que faz a diferença.
A frustração não é o inimigo do desenvolvimento emocional. É uma das suas ferramentas mais poderosas. O papel dos adultos é estar ao lado da criança enquanto ela se desenvolve.
*Geovanna Tominaga é jornalista, especialista em infância contemporânea e neuroaprendizagem. Autora do livro Terra do Contrário (PNLD 2026-2029) e idealizadora do Conversas Maternas.


















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