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Por que seu filho precisa se frustrar?

O que acontece no cérebro quando ele aprende a atravessar o desconforto



Por que seu filho precisa se frustrar?

Existe uma crença muito difundida entre pais bem-intencionados: a de que o nosso papel é proteger nossos filhos do sofrimento. Antecipar, resolver, suavizar.


Garantir que a frustração não chegue. Ou, se chegar, dure o menor tempo possível.


Mas saiba que a neurociência indica outro caminho. Aquela pequena frustração do dia a dia, acompanhada de um adulto mediador, é exatamente o combustível que o cérebro infantil usa para construir a capacidade de se regular emocionalmente.


Portanto, tirar a frustração do dia a dia de uma criança pode atrapalhar o desenvolvimento!

O que acontece no cérebro quando a criança se frustra


Quando o bloco que não encaixa, o amigo que não quis brincar, o sorvete que caiu... e a criança se frustra, o sistema límbico dispara. A amígdala, responsável pelo processamento emocional, entra em ativação intensa. O corpo libera cortisol. A criança chora, grita, desmorona...


Esse momento é desconfortável para ela e para quem está ao lado. Mas é também um momento de treino neurológico fundamental. Entenda o por quê.


Para atravessar a frustração sem colapso total, o cérebro precisa acionar o córtex pré-frontal — a região responsável pelo controle inibitório, pelo planejamento e pela regulação top-down das emoções. É esse acionamento repetido, ao longo de centenas e milhares de pequenas frustrações cotidianas, que vai fortalecendo os circuitos de autorregulação.É literalmente treino! Como um músculo que só fica forte quando é exigido.


Por que seu filho precisa se frustrar?

A maneira como as crianças vivenciam a infância influencia na maturação de determinadas regiões cerebrais, especialmente em períodos críticos do desenvolvimento.


Quando substituímos sistematicamente a frustração pela tela, pelo snack, pela solução imediata, estamos reduzindo o número de repetições desse treino. E o músculo não cresce.


Um estudo longitudinal canadense publicado no Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry acompanhou 265 famílias durante um ano, observando crianças entre 3 e 4 anos. Segundo a pesquisa, quanto mais os pais recorriam às telas para acalmar birras e momentos de frustração, menos as crianças desenvolviam a capacidade de controlar raiva e frustração por conta própria ao longo do tempo.


A criança que aprende a se regular pela tela nunca desenvolve as ferramentas internas para se regular sem ela.

O tédio é amigo da frustração


O tédio funciona pelo mesmo mecanismo. Uma criança que não sabe o que fazer, que reclama que está entediada, que demanda entretenimento contínuo, está, na verdade, diante de uma oportunidade neurológica.


O cérebro em repouso ativo, que vaga, que imagina, que não tem estímulo externo para processar, é o cérebro que consolida aprendizados, que cria conexões não óbvias, que desenvolve o que os neurocientistas chamam de rede de modo padrão.


É nesse estado que surgem as ideias, as brincadeiras inventadas, as soluções criativas para problemas. Quando preenchemos cada momento de tédio com uma tela, não estamos apenas evitando o desconforto. Estamos bloqueando um processo cognitivo e emocional que só acontece no silêncio.


Deixar a criança se frustrar não significa deixá-la sozinha no desconforto. Significa estar presente enquanto ela o atravessa. Há uma diferença neurológica enorme entre os dois.


A presença calma de um adulto que não resolve, mas que nomeia, que acolhe sem eliminar a emoção, é o que os pesquisadores chamam de co-regulação. E é ela que ensina, ao longo do tempo, a autorregulação.


Regulação e co-regulação emocional


Por que seu filho precisa se frustrar?

Muitos pais recorrem às telas para acalmar seus filhos pequenos.


Um estudo longitudinal publicado na revista Emotion pela Universidade Brigham Young acompanhou crianças entre 3 e 4 anos ao longo de um ano para entender como esse hábito afeta o desenvolvimento emocional.


Segundo a pesquisa, crianças cujos pais usavam telas com frequência para regular emoções apresentaram, ao longo do tempo, menor repertório emocional, menor empatia e maior reatividade emocional, comparadas às crianças cujos pais adotavam outras estratégias de acolhimento.


Essa segunda pesquisa mostra que a direção da relação importa: não é só o quanto a tela é usada, mas para quê ela é usada.


Em linguagem simples: a forma como respondemos às emoções difíceis dos nossos filhos vai moldando a capacidade deles de responder às próprias emoções no futuro.

Três situações do dia a dia para praticar

Vamos ver como isso funciona na prática. Não se trata de dificultar a vida da crianca, faze-la sofrer. Mas de que mudar é a nossa resposta ao comportamento inadequado dela para ajudar a criança A se desenvolver. Veja as dicas a seguir:


  • Quando o brinquedo não funciona:

    -Resistir ao impulso de resolver imediatamente.

    -Ficar ao lado. Deixar a criança tentar. Só ajudar se ela pedir ou se a frustração chegar a um ponto que ela genuinamente não consegue atravessar sozinha.


  • Quando ela perde um jogo ou uma disputa:

    -Nomear a emoção sem minimizar. "Você ficou com raiva de perder. Faz sentido."

    -Não apressar a virada para "mas foi divertido" ou "na próxima você ganha."

    -Deixar a decepção existir por alguns minutos.


  • Quando ela diz que está entediada:

-Não preencher imediatamente. "Entendo. O que você poderia fazer?"

-Esperar.

-Deixar o desconforto gerar a busca pela solução. Isso demora mais do que entregar o celular e é exatamente esse tempo que faz a diferença.


A frustração não é o inimigo do desenvolvimento emocional. É uma das suas ferramentas mais poderosas. O papel dos adultos é estar ao lado da criança enquanto ela se desenvolve.


*Geovanna Tominaga é jornalista, especialista em infância contemporânea e neuroaprendizagem. Autora do livro Terra do Contrário (PNLD 2026-2029) e idealizadora do Conversas Maternas.

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Eu sou Geovanna Tominaga, jornalista, educadora parental, especialista em neurociência, educação e desenvolvimento infantil. Sou estudante de psicopedagogia e mãe do Gabriel. 

Apaixonada por comunicação, criei o "Conversas Maternas" pra compartilhar  dicas e informações sobre maternidade e desenvolvimento infantil na Primeira Infância para uma parentalidade mais consciente.


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